domingo, 9 de junho de 2013

O relógio já está na metade.

O único ato genuinamente libertador que eu conheço, é vomitar. Liberta e revigora. A morte? pelo contrário.
Morrer é assinar todas as cartas que você nunca escreveu, e em branco, teu nome te prende à elas e as pessoas que nunca as receberam, e que nunca ouviram teu eu te amo.
Papéis pesados, cortei o dedo neles.
Até que aqui, vomitando todos meus sentimentos, digeridos, crus, aminoácidos, eu acho uma boa ideia - amanha, quando me recompor irei abraça-los - e pedir a permissão de dizer que vos amo.
Mas não farei.
Embora preferisse, disfarço.
Será que precisamos tanto dos outros?
E mesmo que não, eu quero, e isso me bastaria.
Mas e quando eu tirar toda a armadura? e descobrirem que nunca fui forte? que descobrirem que preciso de ajuda? ou pior, que nem sempre quando eu caio, eu me levanto, e quando faço é ligeiro, disfarçado, aceno, e quando passa a primeira parede eu agacho e remoo a dor.
A sinfonia continua. Por hora, parece até que meu coração já bate de acordo com a força de meu esôfago pondo tudo para fora. Vem de dentro, dentro de um lugar que nunca vi em livro de anatomia nenhum.
Sinto órgãos que não existem, dores em locais específicos, se o corpo é um microcosmo como os chineses dizem, está tendo um bigbang e um buraco negro ao mesmo tempo dentro de mim.
Tudo está girando. Gira a bile com a saliva, e forma uma pintura no meu chão, coisa que não se vê facilmente num museu de arte. Isso sim é de verdade, vivemos pelo menos 100 dias para termos um dia como este, em que você se sente vivo e sabe que hoje é o ultimo dia de uma rotina que acaba aqui.
Porém se eu falasse aqui, agora, com todo esse ácido corroendo minha garganta que eu não gostaria que isso parasse, estaria mentindo, mas enquanto eu tiver bile e soro para não desidratar vou continuar aguentando para quem sabe amanha acordar herói da minha própria história.
O relógio já está na metade. meio cedo, meio tarde.
Pela janela, vejo um sol nascendo e outro se pondo.
Esse aperto no coração não me deixa dúvidas de que é nele que reside os sentimentos, a ciência diz que tudo isto se passa na mente, mas o dia que estes homens sentirem isso, precisaram rever toda literatura.
Porque a gente quando pode escolher entre uma coroa pra por na cabeça ou uma cura para esta dor, acabamos escolhendo a primeira?
Se eu pudesse escolher uma música para escutar agora, enquanto regurgito minha vida inteira, seria alguma de que eu não conheço o nome, que ouvi uma vez num filme, ou rádio ou foi um sonho? Silêncio!
Agora, olhando por outro lado, quem sabe a morte liberte, depende.
filosofia barata? nem tanto...
Com sono, eu limpo essa sujeira amanha.

2011.

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